cARnEcRUA - SPD |
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Quarta-feira, Agosto 31, 2005
Só o osso. Maristela sempre foi magra. Na escola chamavam-na de Magristela. Passou a vida tentando engordar. Comia de tudo, e nada resolvia. Fez simpatias, promessas pra santos, certa vez se arriscou até na macumba. Magra, só os ossos. Dieta, fez de perder a conta. Chocolate, quinze barrar por dia em época de lua cheia. Fritura, uma porção pequena a cada duas horas durante três dias. Preparar as refeições com óleo de ontem da pastelaria do Seu Nakuje. Comer uma leitoa por semana. Certa vez se enviesou a ser crente, oraram, fizeram vigília, expulsaram o demônio de seu corpo não sei quantas vezes. E ela, magra. O pastor não tendo mais opções lhe vendeu uma aguinha que tinha curado um aidético tuberculoso com câncer. E ela, magra. Isso aí nem o cão cura! Desabafou o pastor a um grupo de fiéis. Largou a igreja. Era infeliz, não arrumava namorado. Não tinha peito, não tinha bunda, coxa fina, canela seca. Até os dentes eram magros, formatos fino, longos. Era ruim de encarar. Em alguns fins de festa deu uns beijos. Garoto começava a beber demais, ela já ficava de olho. Mas até os bêbados não gostavam. Não tinha carne nos lábios, seco. Será que tô beijando um cotovelo! Baforou um. Maristela, Magristela, minha sina é ser magra. Pensava numa tarde qualquer. Pelo menos tenho os ossos fortes, ossos gordos. Insight. Sentiu-se feliz. Daquele dia em diante acordava pela manhã sentindo-se gorda, de osso. Olhava no espelho "que ossão que eu tô hoje!"!. Depois de algumas semanas pensou até em fazer regime de osso. Não, obrigada! Não tô tomando leite, tem muito cálcio. Magristela foi magra, virou gorda, mudou de osso sem mudar de carne. comentários self-service: Segunda-feira, Agosto 29, 2005
Louco como eu. Para saber se uma cidade é digna de moradia, procuro sempre ver com se comporta o louco da cidade. Qualquer cidade digna, tem sempre um louco com patrimônio. Aquele que vaga sem rumo, mas sempre sabe onde está indo. Aquele que diz coisa com coisa, mas escuta sempre o que quer ouvir. O insano! Que nunca trabalha e sempre come, que nunca tem dinheiro e está sempre nas festas da cidade bebendo. E quando fica bêbado, todos notam, ele fica meio normal! Uma cidade que se preze só tem um louco a solta, se alguém mais se atrever em ficar louco, tem que internar. Não há vagas! E louco que se preze tem o passado obscuro. Ninguém lembra da época em que o fio da razão cingia-lhe as ações. E se alguma velhinha lá da rua de baixo insistir em lembrar, acham que é loucura dela. Cidade boa de moradia é onde o louco anda de terno. Tudo bem, tem que ser um terno bem desfigurado e sujo. Sapato não precisa. Meia, só uma. Relógio, é fundamental. Se você conhece um louco que não usa relógio, não se iluda, não é louco. Calça, é opcional! A calça já insinua sobre o caráter dos moradores. Calça comprida, sociedade medíocre. Calça tipo bermuda, não confie em ninguém lá. Sem calça, povo miserável, não dão nem calça pro louco! Cidade grande não serve pra morar, lá não tem louco, só mendigo. E se o mendigo se declara louco, tem que internar! A cidade grande aboliu a loucura. Andar sujo, comum. Morar na rua, pobre. Falar coisa com coisa, estresse. Nunca more em uma cidade onde não se pode ser louco! E se você for escolher uma cidade pra morar o resto da vida, fazer família e ter filho, nunca deixe de conversar com o louco. Seria loucura não fazer isto! E o que ele vai te dizer? Se a cidade for boa mesmo, ele com uma voz rouca e mansa cantará uma canção que só ele conhece, um verbo inaudito, verterá lágrimas vítreas que darão a ver comoção puríssima em grito apagado por um passado dizendo, estou aqui perdido nesta floresta densa, não sei se quero sair e se o quiser não sei se poderei. Arrume as malas! comentários self-service: Cardápio da semana: Entrada: salada de sorrisos doces acompanhada de beijinhos molhados levemente temperados com planos pro futuro. No prato principal: diversão em prato grande servida ao ponto, flambada a novas amizades com alegrias cortadas em cubos grandes. Sobremesa: roda de amigos com papo das antigas em calda de chocolate. P.S.: sente e sirva-se à vontade. comentários self-service: Domingo, Agosto 28, 2005
frase da semana: ¿ Não concordo com uma só palavra do que dizeis, mas defenderei até a morte o vosso direito de dizê-lo. ¿ François Marie Arouet ¿ Voltaire, o ácido. comentários self-service: Hoje é só beijo na boca, beijo estalado! Beijo de namoro escondido, beijo de paixão, beijo apaixonante. Beijo, que te deixa tonto, sem ar, sem forças, que te deixa no céu, que te deixa vivo! Que faz a noite virar dia, a lua arder e o tempo parar. Sussurros suaves com os lábios colados, hálito de absinto, línguas inebriadas, dizendo coisas sem sentido, dizendo palavras desconexas, palavras amantes, palavras sem som, palavras de toque, palavras com sabor de proibido, de pecado, de primeiro beijo. Sorriso com lábios colados, olhos fechados. Falta de ar, respirar, respirar tua respiração, respirar tua pulsação. Sorriso de dente com dente, língua com dente, língua com língua, beijo no dente, beijo na língua. Carícias com os lábios, com a respiração, carícias carente correspondidas. Suspiros sinceros de desejos secretos. Afagos com os olhos cerrados de sorriso feliz, sorriso de beijo na boca, beijo estalado. Achego comentários self-service: comentários self-service: Renasço. Pra não cometer os mesmo erros. Contratarei um guia. Única exigência: que seja cego de nascença! comentários self-service: Olá, Herbert. _De uma coisa eu sei, Herbert, nós não vamos ficar de braços cruzados! Eu sei que você está do meu lado. Eu e você, já é o suficiente pra mudarmos o mundo! _ Não sou precipitado, não! Se estou te dizendo que está na hora é porque está! Não vamos deixar esses vermes, que acham que são reis, continuarem com essa merda toda! A hora, Herbert, é agora! _ Levante e venha comigo! Herbert não chega a ser uma pessoa. Quando estou indignado com alguma coisa, mas dessas coisas grandes, bem mega, como a desigualdade social, como a fome planetária, como a imposição de valores _entre aspas_ de uma cultura em cima de outra. Eu recorro ao Herbert. E nós juntos, bolamos um plano pra acabar com essas situações. Herbert não é só imaginário, agora mesmo nessa nossa conversa se você me propõe uma forma de acabar com coisas megas que eu não gosto: bem vindo ao clube Herbert. Já conheci muitos Herbert na vida. Cada um mais criativo que o outro. Os Herberts tem sempre uma coisa em comum, eles não gostam de americanos, eles não gostam de judeus, _ mesmo com todo o dinheiro que os judeus gastam no mundo com propaganda pra falar que eles são bonzinhos_ eles não gostam de religiões, _isso não quer dizer que eles não gostem de Deus, ou que não freqüentem alguma, uma coisa não tem nada haver com outra!_eles não gostam de políticos, _nem nos que votaram_ eles de um modo geral são da oposição. Mas o que deixa bem claro se uma pessoa é Herbert ou não, é quando o discurso dela não condiz com seus modos e objetivos na vida! _Eu odeio os americanos! Eles são uns vermes, exploradores de terceiro mundo! E blá-blá-blá! daí passa um pouco. _Eu e minha esposa estamos pensando em levar o Gabriel nessas férias pra Disney! Mas só se ele não ficar de recuperação! Me dá vontade de vomitar na hora! _Os judeus tão massacrando os muçulmanos! Eles atacam com rifles enquanto os muçulmanos atiram pedra! E nós não vamos fazer nada!!!? Grita com todos na mesa! Daí passa um pouco. _ Tchau, tchau pessoal, já vou indo porque quero assistir ao Oscar! Se você não entendeu, eu é que não vou explicar _ senão esse livro não vai ser publicado nunca!! Mas continuando, não sei quem é pior? Se os Herberts que tem uma noção, mesmo que superficial de como se move o planeta, e vivem sua vidinha medíocre como se não fosse com eles. Ou se o resto da população, a massa, a massa de manobra, a que realmente não sabe como as coisas funcionam, por falta de informação ou por burrice mesmo. Páreo duro! E também não vou só criticar não, quantas vezes eu não sou Herbert. Aliás, nas mesas de bares em happy-hour é o que se mais vê. Idéias de mudar o mundo! Uni-vos beberrões de Happy-hour, intelectuais de botequim! Está pronta a revolução! Só falta agir! Coisa que um Herbert não faria nem que vivesse um milhão de anos! _Garçom, a conta! Não quero dormir tarde, amanhã vou jogar golfe pela manhã! _ Aqui está a conta senhor! Dois bilhões de pessoas passando fome, uma criança morta a cada dois segundo! _Aceita cartão? Eu não tenho as respostas. Não sou o mister ação, nem coisa do tipo. Só que como disse no inicio da nossa conversa eu não me adapto, o tempo não me faz acostumar, não consigo ser normal! E não se engane, eu estou aqui pra te contaminar com essa minha inquietação, pra te deixar minimalista e enxergar as doses exageradas que estamos tomando. Se eu não conseguir nada disso, não me importo, vou continuar vomitando na cara de alguém até achar um dos meus. Eu não gostaria de ter sido tão claro assim, mas as vezes não me resta outra escolha. comentários self-service: Hevergildo Hevergildo em seus lençóis brancos e macios acordou deprimido, como acontece todos os dias. Ainda de mau humor, telefonou pra namorada, como acontece todos os dias. _Alô! Oi! Te amo! Eu também! Tchau! Tchau! Alice. Inteligente na medida do possível, gostosa dependendo do tesão, dissimulada como toda mulher. Eles não são parecidos, não tem nada em comum, nem são opostos, nem nada. Mesmo assim continuam, contra todas as previsões, juntos. Talvez esse seja o único acontecimento na vida de Hevergildo que não é previsível. Ele não tem motivo pra existir, não faz nada que um carrapato também não faria. Nunca produziu nada que qualquer um já não tenha feito. Mesmo assim Hevergildo acorda deprimido. Reclama da vida com a nítida sensação de um injustiçado. Como se alguém o tivesse enganado, uma promessa que ele não viu cumprir. As vezes fica pior. Reclama do amor, dos amigos, do trabalho.... Hevergildo é vítima. Só que dele próprio. Da sua performance de ameba. Sua sina é não ser ninguém. Sua vida é uma vida normal, nasceu, estudou.... pode ser resumida em uma página. Hevergildo, você não vai mais posar de vítima! Das pessoas que se relacionou, metade destruiu, das coisas que fez na vida, nenhuma é importante. Amar nunca soube o que é. Engana-se achando que sabe. Não faz a mínima noção. Nem poderia, o amor só acontece pra alguns, milhares morrerão somente na ilusão. Hevergildo é como todas as pessoas. Hevergildo é uma população inteira. comentários self-service: Amanhã quando seu telefone tocar te acordando, sou eu te ligando pra dizer que sem você eu não existo. Sem tua presença não tem graça, sem o teu sorriso nada é azul! Vou ligar pra dizer que o que eu mais quero é acordar do seu lado, abrir os olhos pela manhã e ver teu cabelo bagunçado, teu rosto sem maquiagem, teus olhos inchados, ouvir tua voz rouca dizendo bom dia. E eu vou dizer eu te amo e vou sorrir! comentários self-service: Trim, trim, trim.... os dígitos piscavam 07:00h. Abriu os olhos inchado com dificuldade. 07:00! 07:00! 07:00! Rolou pro lado, pro outro, pôs o travesseiro na cabeça. 07:00 07:01 07:01! _Fazer o quê! Alguém tem que trabalhar neste país. Pensou, ainda sonolento. Sentou na cama, bocejou. Bocejou de novo. Levantou. Arrastou os chinelo até o banheiro. Fechou a porta. Hidelbrando é uma pessoa dessas como tantas, leva uma vida comum. Tem um trabalho, um carro, uma casa, uma namorada, apesar de ser trintão. É budista, mas pratica o Dharma assim como os católicos praticam o evangelho. Hoje é seu primeiro dia em casa sozinho. Antes morava com a mãe. Mas ela achou que ele merecia mais liberdade. Daí comprou um apartamento pro Hidelbrando. Financiado em 120 meses no nome dele! Ele aprovou, e se mudou. Hoje, de casa nova ele acordou só. Gostou. Saiu do banheiro ainda se enxugando e parou em frente ao guarda-roupa. _Hoje vou escolher uma palavra pra vestir que mostre o que sou. Não é mais minha mãe quem vai escolher o que eu visto, agora sou eu! _Acho que vou com uma AMIZADE gola V amarela manga curta e um DESEJO roxo surrado justo. Hummm! AMIZADE amarela não combina com DESEJO, ainda mais roxo. AMIZADE e DESEJO confunde o visual, é uma mistura muito perigosa. Aliás, não pode nem lavar essas peças juntas, AMIZADE e DESEJO batendo na lavadora juntos, não pode. O DESEJO estraga qualquer AMIZADE. _Ah já sei, vou de PROFISSIONALISMO manga longa listrada azul claro com branco e AMOR vermelho cós baixo. PROFISSIONALISMO listrada com AMOR vermelho????!!!! Tô louco! PROFISSIONALISMO com AMOR no meu trabalho? Não vai dar certo, eu não gosto de trabalhar! Tem gente que fica bem dentro de um PROFISSIONALISMO com AMOR. Héh!? Tem que ter o biótipo! _ Que tal, DESCONTRAÇÃO florida manga curta com PREGUIÇA bem larga em algodão! Melhor não, se chegar no escritório assim, meu chefe pode desconfiar do meu rendimento hoje. _Poxa, tanta palavra dentro desse guarda-roupa e eu não consigo combinar nenhuma! É mais difícil que imaginei. _ E essa gaveta trancada? O quê que eu pus nela? _ Ah, tá! As CULPAS! Não sei por quê que tem tantas CULPAS nessa gaveta? Não me lembro de ter tanta CULPA assim não! _Ah sim! Analice, ganhei dela, essa outra... Ana Claudia. Essa pequena.... Francielle. Essa.... é.... conjunto completo...., ganhei da minha mãe, claro. Essa....da Viviane. Essa.... Isadora. Poxa! Só tem CULPA que ganhei de mulheres! E todas colantes pretas apertadas. A próxima mulher que me der CULPA de presente eu devolvo, não quero nem saber. E o tanto que é difícil cuidar dessas CULPAS! Tem que ficar em gavetas separadas por que mancham todas as outras peças, soltam um óleo, não sei explicar. Dias desses deixei uma PAZ branca nova perto da gaveta de CULPAS. Pra quê! Destruiu a PAZ branca, não serviu mais pra vestir. E não é só paz branca não, fui lavar umas CULPAS velhas na máquina e só de respingar no AMOR rosa encardido com furinhos que eu tava vestido, estragou! Lhe dá com essas culpas é uma dificuldade. E o pior é que não consigo jogar elas fora, foram todas presentes! _Já são 07:40 e ainda não me decidi! _Vou é com esse ÓDIO cinza sintético. _Não!!! ÓDIO não! Não gosto de usar ÓDIO, não combina comigo! _Vou usar é AMOR! AMOR vermelho novo, conjunto completo. _Quer saber, vou ligar pra minha mãe! _ Alô, mãe! _Que palavra é que eu uso pra trabalhar na segunda-feira? Não tô conseguindo combinar nada! _Filho, segunda você sempre vai com a INDIFERENÇA, aquela que tem a logomarca da empresa! _INDIFERENÇA?!!! Tchau!!! _Meu filho m....tu tu tu tu tu .... _INDIFERENÇA?!!! Eu é que não vou sair na rua vestindo uma INDIFERENÇA, quer saber não vou nem trabalhar!!! Hidelbrando vestiu um CARP colorido confortável, pôs um DIEM deixando o botão acima do zíper aberto e mudou de vida! comentários self-service: |